terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

intencionalidade

não se diz pela intenção de palavrear
quando não somos neuróticos.
cala palavra
fala-se tudo
silêncio tampouco é sempre comunicação


a intenção precisa ser a intenção.

fora do círculo ou dentro dele
continuam os mesmos pesos

porém
perto
é muito mais certo

qualquer bobagem
foge menos
que o nada de nosso tempo

a poça clama por ser rio
eu vi

o asfalto por quebrar-se
ouvi

ser feliz e livre sozinho
não é.

a intenção.

quando se tem
um comichão

que queira mais que projeção.

feliz, é o que se diz,
de quem nunca quis.
ficando a pentear ovelhas
enquanto o mundo se desembrulhava.
não era você
a projeção não funcionou dessa vez
não era você quem se desesperava.

domingo, 31 de janeiro de 2010

do tamanho de um pensamento

esse texto foi escrito numa noite em que as paredes transpiravam, situação particular considerando o clima do noroeste do paraná. foi a primeira tentativa de acreditar no caráter inesgotável do murmúrio, em deixar o pensamento passar à folha sem cortes, como Breton deixou a dica, no manifesto do surrealismo.

preâmbulo a uma audição sem cortes do espírito.
conversa entre amigos - agosto de 2010.

"eu quebro a descontinuidade"
"dois tótens na floresta"
"intelecto só é legal se é doença"

(começa a audição)

a cabeça se imagina tanto que acaba com a paisagem.
vocação para ser paisagem (me)
chegou a hora de você ver:
então abra os olhos e veja.
abra os tantos
TANTOS TONTOS OLHOS DO CORPO
são tontos?
são olhos de potizaaa
agora rosaaa
agora cavernaaaa
agora larvaaa
agora peneiraaaaa
agora esquizofreniaaa
nada além de animalidadeee
a sua mais antiga vidaaaaaaa
o seu mais antigo sonhooooo

há só o que você permite no seu mundo
e desta forma você não se torna a alegria
mas sofre duma doença
de vida
leve doença

pensamento
fome
tormento
escrevo mediunicamente.

o espírito é o que não se assemelha ao animal au au
mas eu não concordo ôuôuôu
há ecos e vozes
que só silenciam quando a cabeça está tranquila
na vigília.

é por isso que preciso
existo sem ou sempre com essa tristeza desde a tenra infância?
os fatos nunca serão demais para sua louca esperança

é animal
é torto
a vida de um passageiro de trem
é a viagem
um dia será arte
ou é uma miragem êmmêmmêmm
cadeias de montanhas
noites insanamente azuis
céus com amarelos,pretos
e o céu como uma segunda pele da cidade

você ouve demais
caiu na família que elimina isso em você.
é um porto seguro.
não há medo além da página
não sinta medo, as cadeiras têm esse som
as árvores balançam, é assim mesmo...
sempre um porto seguro
sempre a realidade
sempre a meditação
nunca aquilo que você aprendeu por rodeios
a não dizer para não existir.

a vida selva se torna difícil de abstrair.
difícil separar abstração de
vida
e vida
de solidão também.
"nas tripas, meu amor."

dê olá para seu silêncio
e ele silencia
eu não quero mais silenciar
preciso de liberdade
menos impregnada do mundo
e muito mais dos melamores mil
que chamuscam de você para uma pele
estendida como rede na praia.
me dê um pouco de partilha
e nos damos então.
a pena que sai é sempre a mão é a pena é a mão.

teorias são o oposto da culpa
mas são igualmente terríveis.

e você amigo ariano
sabe o que quer
e acho que não tem nada mais que agente saiba.
é verdade
pura construção de um mundo:
conceituamos organicamente por toda parte.
colocamos as rédeas no lombo e estamos no mesmo cavalo.

passageiros
à cada nova visão
tua cabeça leva uma pancada no banco
e é aí que você percebe
que sempre viu em viagens
inclusive uma voz consciente falando com você
que não sabemos quem era,
se era você.

um lago.

lótus.

imaginação também é inteligência
quero ter estar ser tudo que permaneça em mim
doors a vida inteira

acharia bem melhor não estar sozinha
por não entender mais
que horas
são
oras,
são idéias?
são mortes na estátua, saia daí!

estrelamente
assustadoramente
te põe à frente
os que lhe são iguais.
relações, não competições.
cada um com seu osso e não falemos mais nisso.

rios
raios
desafios
saltos femicrús de sepato na escada.

as botas que falavam se parecem com as minhas
a voz que sai agora parece uma fuinha.

produzo
uso mais
minha cabeça

me apaixono por
passageiros
porque sou uma dessas
e que se apaixona por passageiros.

mas tem um que você
quer que
qualquer que
qualquer
que seja
têm de ser ele.

você quer domar o monstro?

então veja
eu te quero, queimo
leito banhado de fogo
te abraço, te amo, te olhos
te olhos o tempo inteiro
teolhusutempuintêro
teolhoalém
mas te olhar aqui será legal também.
te querelas
te olhos sem nenhuma remela.
te olhos insistentemente
provável
mente
não me
olhos também.

você podia erigir comigo
mundos menos propensos ao pecado

é a vida que não escolhi cair,
é a vida,
é o amor
é uma fatalidade.
não fui eu
não foi você

não fomos ninguém.
somos assim, distintos.

minha certeza é
a dúvida que se consome
verás
o clarão
bizarro no fim.

não
numa facilidade de dizer nãos
numa acrobacia malabarenta
malabarimpãpã
vários nãos

leve tudo e aproveite a viagem.
ele também corria demais
mais um espírito
desesperado
possuído
de uma dor que sabe igual
em muitos possuídos espíritos

vagantes
vagar
vagão
angar
vagar vão vida
vivível.

dos monstros
das sêdes individuais
se parte para uma mesma montanha
que é o tótem do futuro
porque é a vanguarda.
se não fosse da mesma geração não saberia.

a solidão
é parte
e parte
de mim
mas eu gosto muito
de vocÊ
um pouco
perto.
o que está superentendido
é que seríamos parceiros de viagem.

nós que em cada curva vemos algo de novo
somos malucos
resta saber
quer
ri
por último e melhor

através de toda sorte de burrices espalhadas
o vento varre o chão da casa
espelhos sempre tiveram
e sempre terão
ovos sempre
totens terão

pensamentos bolas
gigantes despenhadeirando
morrabaixo.
não.

através da
arte
atravessa ao outro
lado
e vê
todas
todas as paisagens
são mentais.
nem mentira nem verdade.

tóten-tando (tô mesmo!)

"eternamente
é ter na mente
eternamente
e ternamente
é ter na mente
eternamente
é ter na mente" (Walter Franco)

com certeza
é uma juventude de portas
que abrem
para o aeroporto

aéreo
ah é?
por tudo que é mais sagrado ^^

cada fagulha
centelhava
e olhava.

sábado, 2 de janeiro de 2010

idéia de alegoria

Pela sua sanidade – este apelo longínquo- eu sugiro que vote no partido “eu sou o seu ninguém”. Vai insanamente o abismo da vida se aumentando, e por mais absurda que pareça a analogia simbólica, este abismo existe materialmente é entre gentes, que vejam bem, elas realmente estão divididas por este abismo de entendimento. O rio, lá embaixo, corre cristalino. Porém não tanto como antes; sua transparência se obtém jogando um retransparecedor nas águas. Havia antes, uma pontezinha de madeira sentada como o paraíso encima da correnteza, sua madeira era fresquinha e algumas pessoas passavam por lá. O rio tinha duas margens, que representavam, para além do absurdo, margens por onde passavam correntezas opostas. As crianças que viviam numa margem do rio, não podiam brincar com as crianças que moravam do outro lado, e tudo era assim simples como essa explicação: não podiam, mesmo. Que chato! Diziam que no dia em que uma criança das que não podia se misturar resolvesse faze-lo, voltaria com piolhos. Mas o curioso, é que ninguém sabia que na criação desta criança, a ausência de piolhos se dava por diversos fatores da vida material, e não por uma predisposição genética para tal. Afinal, o fator problemático de conviverem com pessoas que possuíam piolho, não era a possibilidade de os pegarem para sua cabeça?

Após muito tempo, os donos do rio, que agora já tinha dono, antes não, criaram formas realmente capetísticas, como se adora dizer em alguns templos dedicados ao seu deus, que atentem ser uma idéia de deus dentro de tantas outras existentes ou que já passaram pela face da terra, criaram eles formas de que as crianças entendessem da existência de tudo que há do outro lado: havia filmes sobre o subúrbio, havia filmes sobre o centro da cidade. Porque agora, já estamos na cidade, se situe, amigo meu, minha amiga, e paz e vamos lá. O curioso, voltando nos filmes, é que todos eles eram produzidos (palavra muito usada na nossa época) pelas mesmas pessoas! Mais curiosa a idéia de que os que viviam de um lado do rio, considerado o lado alto, mas já falaremos disso, precisavam de alguma informação sobre o lado vizinho, e se consideraram mesmo muito corajosos, por atravessar o rio e ir até lá. Chegando lá é que começa a desgraça toda. A pobreza do pobre faz o rico pensar sobre o mundo com exotismo.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

meditação no brazil

ser sujeito só da vontade de percorrer algum chão: pisável.

pela esperança morreu aquele (a) porque ela havia morrido.

sem esperar são cem vivências de realidades complicadas

longe do fardo
da possedebilidade de passar adiante

sem saber por onde...

passou. (?)

você só sabe depois de passar
pela esperança em porta,
se
$ílvio, $antos, ou Coríntio$

no
braZil Zil Zil !

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Guinga!

Pra quem interessar, Guinga é um músico e compositor assombroso, e ainda por cima tem letras maravilhosas. sem palavras, o som invade a janela e roda no quarto.

Orassamba


Tempestarde
Chuvabismo
Relampeado azulejei com a luz
além-rebentação
confessei: o mar é meu pecado!
Eu errei, quis ser rei,
soberbei...
Orassamba
acreadeço
pela esfoladura em minhas mãos
na palma em concha o anjo ressurrei
aluciassassinado.

A sereia na rocha
Me avisou mas eu soberbei
o fanal com a tocha
me avisou mas eu recomecei
Orassamba, não perdoe
esse mergulhorgulho, pescador
que de uma outra vez
com São Pedro
eu ando sobre as águas!
Esse anzol que jogamos
onde há peixe nenhum
o espinhaço sempre em riste
e esse clarão na crista, ah, ah, ah
O Universo na caçamba
é do pescador e do letrista de samba.

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Age, Maria
Rasga o teu véu de virgem
Tinge tuas mãos na vertigem do pecado
Maria, ateu ao teu lado
Lanço em teu ventre
A língua que te consagre
Milagre é ser pura em plena incontinência
Sacra é a vida da incoerência
Não quero ser carpinteiro
Pra esculpir cruz que imortalize:
Que não seja eu
Que ao te amar
Te martirize

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

da destra ida

me debruço sobre um teto que está de passagem, vôo
vôo o que associam com a morte
e é de vida, de já vou!
me coloco lótus
noite pezarosa
dias infindos
primaveras inesquecíveis
unicidade
único
única possibilidade é a vida.
escolher a morte ou a vida é o princípio de tudo.

não consigo descansar e é de vida
vai, sobe a colina verdejante
liga a peça, faça como preferir
mas abrace
abrace o vôo
mesmo que atormentador
aumenta a dor
fere mas só porque não se vê
que é de vida,
que quando se vê,
se maltrata a vida sem querer.

assim tão distraída
dis-traída
me desvio da
destra
ida
em busca
de um pensamento mais convexo
que exerça
a destreza
distraída.

distraia sua ida para calar o suicídio
suy cídio convicto
combustível da engrenagem
é o vício.

na vida real onde adestra a destra vida.
o passar da página é o bater de asas
durma e lucidez translúcida
luzíadas
converta-se a geneologia do saber em ciência.
semi-ótica?
querem que todo mundo tome cuidado,
durma um sono velado.
quem não distraídos venceremos é assim.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

chuva na cidade (horário de almoço)

esta casa está leves mente molhada
leves mente tocada pela vida
está visivelmente
encharcada
ela está atolada
de uma distância consideravelmente considerável,
na natureza.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

poemabraços

para onde as nuvens estão indo?
vão buscar as andorinhas...
vão encher um pote de mel...

para onde e para quando
a realização rendida de cravos

redes nossas completando-se
contemplando
sonho o sonho mordido no meio

vou com as nuvens que só se movem diluídas, ralas
dispersas dispistando os choques de energia

e você com a calma de prata
encontra o centro fora de si, fora de mim
e de todos nós
o seu centro de paz, o cosmos

o cosmos dos seus dentes
a janela dos seus olhos
ah, natureza dos seus cabelos!
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eu árvore
após a tarde
de nós árvore
sou somente
eu árvore

na bacia de prata ou do araguaia
no rastro do bicho
mamífero fugitivo do fogo
ou na trilha iluminada de uma criança
caçando tatu-bolas
árvore estive observando
num equilíbrio pouco estático
expele seiva e cura a ferida

não sei quantos ventos passaram
foram deveras atormentadores
de paz ou de desespero

agora eu árvore
agora passe pelo meu caminho
que fico bem ali onde algo permanece
no vértice dos raios
onde convergem emoções coloridas
e fico bem, meu bem.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O Surrealismo , Supernaturalismo.


trechos que mais gosto do manifesto do surrealismo, de 1924, escrito por André Breton.

"É uma história muito conhecida que eu conto, é um poema célebre que eu releio: estou apoiado contra um muro, com orelhas verdejantes e lábios calcinados." (Paul Éluard)



(...) ela (a imaginação) é incapaz de assumir por muito tempo este papel secundário, e por volta dos vinte anos, prefere, geralmente, abandonar o homem a seu destino sem luz. Ainda que se procure mais tarde, daqui e dali, recuperar-se, tendo sentido faltar-lhe, pouco a pouco, todas as razões para viver, incapaz que se tornou de se encontrar à altura de uma situação excepcional tal como o amor, não conseguirá absolutamente. (...) A todos os seus gestos faltará amplitude (...) Ele não se dará conta daquilo que lhe acontece e lhe pode acontecer, senão do que liga este acontecimento a uma porção de acontecimentos dos quais não participou, acontecimentos falhos. (...) Ele não verá, sob pretexto algum, sua salvação.

Cara imaginação, o que eu amo, sobretudo em você, é que você não perdoa.


(...)O espírito do homem que sonha se satisfaz plenamente com o que lhe acontece. A angustiante questão da possibilidade não se lhe apresenta mais. Mate, roube mais depressa, ame tanto quanto quiser. E se você morrer, não tem a certeza de despertar dentre os mortos? Deixe-se levar, os acontecimentos não toleram que você os retarde. Você não tem nome. A facilidade de tudo é inestimável.
Que motivo, (...) confere ao sonho este andar, faz-me aceitar sem reservas uma multidão de episódios cuja estranheza (...) me fulminaria? E, no entanto, eu pude acreditar no que meus olhos viam, no que meus ouvidos escutavam; chegou este belo dia, este animal falou. Se o despertar do homem é mais duro, se ele rompe o encantamento, é que ele foi levado a fazer uma idéia mesquinha da expiação.
(...) Creio na resolução futura desses dois estados, aparentemente tão contraditórios, tais sejam o sonho e a realidade, em uma espécie de realidade absoluta, de superrealidade. "a imagem é uma criação pura do espírito. Ela não pode nascer de uma comparação mas da aproximação de duas realidades mais ou menos afastadas. Quanto mais distantes e justas forem as relações das duas realidades aproximadas, tanto mais forte será a imagem - mais terá ela de capacidade ou poder emotivo e de realidade poética... etc." (Pierre Reverdy)
**Definição da enciclopédia Filos sobre o Surrealismo: O surrealismo assenta na crença da realidade superior de certas formas de associação, negligenciadas até aqui, no sonho todo-poderoso, no jogo desinteressado do pensamento. Tende a arruinar definitivamente todos os outros mecanismos psíquicos e a substituir-se a eles na solução dos principais problemas da vida.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A voz do demônio (William Blake)

Posto William Blake (1757- 1827), retirado de "As Núpcias do Céu e do Inferno". Ele é um dos primeiros poetas malditos da modernidade, e considero que muitos poderão ter o que se chama de um" bom encontro", com este inglês ; estes malditos eram e são assumidamente contrapostos aos enxames de abelhas já agonizantes morrendo nas luzes (de lâmpadas fracas) da razão ocidental, em união sempre renovada historicamente com a política avexatória e a culpa cristã pelo progresso de suas barbaridades desenvolvidas em termos predatórios no planeta Terra. A figura do demônio é invocada por vezes por estes poetas soltos (visto que poetas malditos não estiverem geralmente agrupados sob algum estilo, à excessão de alguns surrealistas) no mundo do delírio, mas não significa que acontece uma adoração do tinhoso, simplesmente o demônio é usado por ser símbolo de revolta, característica instrínseca ao ser humano (morda da fruta da árvore da ciência, baby, mas o criador vai te punir por isso!).

A VOZ DO DEMÔNIO

Todas as Bíblias ou códigos sagrados têm sido a causa dos seguintes Erros:
1. Que o Homem tem dois princípios reais de existência, a saber: um Corpo e uma Alma.
2. Que a Energia, cognominada Mal, provém exclusivamente do Corpo; e que a Razão, cognominada Bem, não provém senão da Alma.
3. Que Deus inflingirá tormentos ao Homem na Eternidade por haver seguido as suas Energias.
A isso, porém, se opõem, como Verdadeiros, os seguintes Contrários:
1. O Homem não tem um Corpo distinto da Alma, pois aquilo que se chama Corpo é uma porção da Alma discernida pelos cinco Sentidos, as principais vias de acesso da Alma neste estágio de nossa existência.
2. A Energia é a única vida, e dimana do Corpo. A Razão é a linha divisória ou a circunferênia exterior à Energia.
3. A Energia é Eterna Fruição.

Aqueles que refreiam o desejo assim procedem porque o que possuem é bastante débil para ser reprimido, e o repressor, isto é, a razão, usurpa o lugar do que anelam e governa os relutantes.
E o desejo sofreado vai-se gradualmente tornando inerte até reduzir-se a uma sombra do que era.
A história disto acha-se estampada no Paraíso Perdido, e o Soberano, ou Razão, chama-se o Messias.
E o Arcanjo original, ou o detentor do comando das hostes celestes, é aí cognominado o Demônio, ou Satanás, e seus filhos se designam pelos nomes de Pecado e Morte.
No Livro de Job, todavia, o Messias de Milton é denominado Satã.
Pois este relato foi adotado por ambos os grupos.
Parecia, na verdade, à Razão como se o Desejo tivesse sido banido; mas a versão do Demônio é que o Messias tombou e fundou o céu com o que roubara do Abismo.
(...).


sábado, 7 de novembro de 2009

pracimealém

vamos nos desgastando
como a contingência do pingo
que desce dos andares do
prédio e anda agora
em minhas costas
num lugar temporal com cheiro
de vida me transporto.
e a vida nem sempre cheira bem
meu avô diria
,
minha vó riria
e eu concordaria
e riria e abraçaria e
abraço vô! abraço vó!

abraço o vôo que me puxa
pracimealém
com medo

vejo você pracimealém
seus olhos são atormentados
acalmada acamada
você salva
a contingência do bem.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

sobre pássaros e céus impossíveis

Na manhã cinza os pássaros voam

o céu não está tão povoado

os pássaros voam

não há outros bichos

dizem que ainda há pássaros

não há terra que não seja

do homem

pela janela

tampouco muitos que a peneira segurará

quando caírem em queda livre
do céu da eternidade da credulice humana.

domingo, 27 de setembro de 2009

utopia amorosa inconsciente

desde que somos de novo adolescentes
nos conhecemos

quando os mares clarearam
nos amamos

em águas turvas tombamos
leves canoas quase vazias
rio elameado no cheiro
água turva

é uma enchente
árvores e quem e o que puder
trepado sobre elas
uma imagem recorrente
nos sítios da infância
encantados
chão batido
vassoura de bruxa
varre os terreiros
das relações passa a das

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Eles estão cegos.

"Provai e vede" (como se diz na missa católica ao ser erguido no ar o "corpo de cristo", um círculo quebrado de farinha e água, banhado no vinho, gostosinho de tomar. MAS, em tempos difíceis como os de hoje, apenas quem está liderando a cerimônia toma o corpo molhado no sangue e atiça a loucura humana com mais consciência do que faz). (Agora voltando...) Provai e vede que a cegueira branca, apavora.
trechos de "Ensaio sobre a Cegueira" de Saramargo:

Os automobilistas, impacientes, com o pé no pedal da embraiagem, mantinham em tensão os carros, avançando, recuando, como cavalos nervosos que sentissem vir no ar a chibata.
(...)
A consciência moral, que tantos insensatos têm ofendido e muitos mais renegado,
é coisa que existe e existiu sempre, não foi uma invenção dos filósofos do
Quaternário, quando a alma mal passava ainda de um projecto confuso. Com o
andar dos tempos, mais as actividades da convivência e as trocas genéticas,
acabámos por meter a consciência na cor do sangue e no sal das lágrimas, e, como
se tanto fosse pouco, fizemos dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro,
com o resultado, muitas vezes, de mostrarem eles sem reserva o que estávamos tratando
de negar com a boca. Acresce a isto, que é geral, a circunstância particular de que,
em espíritos simples, o remorso causado por um mal feito se confunde frequentemente
com medos ancestrais de todo o tipo, donde resulta que o castigo do prevaricador
acaba por ser. sem pau nem pedra, duas vezes o merecido.
(...)
Há mil razões para que o cérebro se feche, só isto, e nada mais, como uma visita tardia que encontrasse cerrados os seus próprios umbrais. O oftalmologista tinha gostos literários e sabia citar a propósito.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Piva e as orgânicas iluminações profanas


Visão de São Paulo à noite - Poema Antropófago sob Narcótico


Na esquina da rua São Luís uma procissão de mil pessoas

acende velas no meu crânio

há místicos falando bobagens ao coração das viúvas

e um silêncio de estrela partindo em vagão de luxo

fogo azul de gim e tapete colorindo a noite, amantes

chupando-se como raízes

Maldoror em taças de maré alta

na rua São Luís o meu coração mastiga um trecho da minha vida

a cidade com chaminés crescendo, anjos engraxates com sua

gíria

feroz na plena alegria das praças, meninas esfarrapadas

definitivamente fantásticas

há uma floresta de cobras verdes nos olhos do meu amigo

a lua não se apóia em nada

eu não me apóio em nada

sou ponte de granito sobre rodas de garagens subalternas

teorias simples fervem minha mente enlouquecida

há bancos verdes aplicados no corpo das praças

há um sino que não toca

há anjos de Rilke dando o cú nos mictórios

reino-vertigem glorificado

espectros vibrando espasmos

beijos ecoando numa abóbada de reflexos

torneiras tossindo, locomotivas uivando, adolescentes roucos

enlouquecidos na primeira infância

os malandros jogam ioiô na porta do Abismo

eu vejo Brama sentado em flor de lótus

Cristo roubando a caixa dos milagres

Chet Baker ganindo na vitrola

eu sinto o choque de todos os fios saindo pelas portas

partidas do meu cérebro

eu vejo putos putas patacos torres chumbo chapas chopes

vitrinas homens mulheres pederastas e crianças cruzam-se e

abrem-se em mim como lua gás rua árvores lua medrosos repuxos

colisão na ponte cego dormindo na vitrina do horror

disparo-me como uma tômbola

a cabeça afundando-me na garganta

chove sobre mim a minha vida inteira, sufoco ardo flutuo-me

nas tripas, meu amor, eu carrego teu grito como um tesouro

afundado

quisera derramar sobre ti todo meu epiciclo de centopéias

libertas

ânsia fúria de janelas olhos bocas abertas, torvelins de

vergonha,

correias de maconha em piqueniques flutuantes

vespas passeando em voltas das minhas ânsias

meninos abandonados nus nas esquinas

angélicos vagabundos gritando entre as lojas e os templos

entre a solidão e o sangue, entre as colisões, o parto

e o Estrondo

de: Paranóia (1963)

domingo, 12 de julho de 2009

Van Gogh: o suicidado pela sociedade.


Artaud, sem mais delongas, considero um verdadeiro gênio. Ácido como deve ser alguém que lucidamente vive enquanto negação de uma ordem, esta, "inteiramente baseada no cumprimento de uma primitiva injustiça". Fez parte do início do movimento surrealista, deixando o mesmo quando seus membros começaram a unir-se ao Partido Comunista. Apresento "Campo de trigos com corvos" de Van Gogh (pintado pouco tempo antes do suicídio) e alguns trechos do ensaio "Van Gogh: o suicidado pela sociedade" (obs: Van Gogh e Artaud, foram ambos considerados loucos):

Pode-se falar da boa saúde mental de Van Gogh, que em toda sua vida apenas assou uma das mãos e, fora disso, limitou-se a cortar a orelha esquerda numa ocasião.
(...) Por isso, uma sociedade infecta inventou a psiquiatria, para defender-se das investigações feitas por algumas inteligências extraordinariamente lúcidas, cujas faculdades de adivinhação a incomodavam. Gérard de Nerval não estava louco, mas o acusaram de estar louco para desacreditar certas revelações fundamentais que estava em vias de fazer; e, além de acusá-lo, certa noite golpearam sua cabeça, golpearam-no fisicamente para que esquecesse os fatos monstruosos que ia revelar e que, por causa deste golpe, passaram do plano mental para o plano supranatural, pois a sociedade toda, conjurada contra sua consciência, mostrou-se naquele momento suficientemente forte para obrigá-lo a esquecer sua verdade.

(...) Diante da lucidez ativa de Van Gogh, a psiquiatria nada mais é que um antro de gorilas obcecados e perseguidos que só dispõem de uma ridícula terminologia para aplacar os mais espantosos estados de angústia e asfixia humana, uma terminologia digna de cérebros tarados.

(...)E o que é um autêntico louco? É um homem que preferiu ficar louco, no sentido socialmente aceito, em vez de trair uma determinada idéia superior de honra humana. Assim, a sociedade mandou estrangular nos seus manicômios todos aqueles dos quais queria desembaraçar-se ou defender-se porque se recusaram a ser seus cúmplices em algumas imensas sujeiras. Pois o louco é o homem que a sociedade não quer ouvir e que é impedido e enunciar certas verdades intoleráveis.

(...)E ele não se suicidou num acesso de loucura, de desespero por não conseguir encontrá-lo (o eu humano), mas, pelo contrário,ele havia conseguido, tinha descoberto o que era e quem era quando a consciência coletiva da sociedade, para puni-lo por ter rompido as amarras, o suicidou.

E aconteceu com V.Gogh como poderia ter acontecido com qualquer um de nós, por meio de um bacanal, de uma missa, de uma absolvição ou qualquer rito de consagração, possessão, sucubação ou incubação.

Assim a sociedade inoculou-se no seu corpo, esta sociedade

absolvida,

consagrada,

santificada,

e possuída,

apagou nele a consciência sobrenatural que acabara de adquirir e, como uma inundação de corvos negros nas fibras de sua árvore interna,

submergiu-o num último vagalhão

e, tomando seu lugar,

o matou.

POIS ESTÁ NA LÓGICA ANATÔMICA DO HOMEM MODERNO NUNCA TER PODIDO VIVER, NUNCA TER PODIDO PENSAR EM VIVER, A NÃO SER COMO UM POSSUÍDO.

sábado, 4 de julho de 2009

cidades

cálices dourados em todas as bocas
e o pior
estão vazios!

um domingo amarelado
nos dentes brancos do comercial
de creme dental

guerras particulares
caladas na obediência.

mas para alguns o emaranhado de nervuras
do cérebro
são fios de pólvora

nas cidades do homem
o céu é a possibilidade
oh natureza intocável!
a obediência é fato
nos passos do concreto
marasmo.

desamparo, eu te compro.
sanidade, você mente
não vou lhe vender a ninguém.
loucura eu te saúdo
com cálices cheios,
muros pulados e coração livre.

quem bota as rédeas
merece ser chicoteado
(mas merece muito!)

sinto a solidão das árvores
ilhadas de suas semelhantes

cabides passeiam em falso
imagine ação,
imaginação!
te saúdo negação, sente-se.

terça-feira, 2 de junho de 2009

(Magritte e Suzanne - Leonard Cohen)
"E jesus era um marinheiro
quando ele caminhou sobre a água,
e ele gastou muito tempo observando
de sua solitária torre de madeira...
E quando ele teve certeza
que só homens afogados poderiam vê-lo,
ele disse "Todos os homens serão marinheiros
até o mar libertá-los",
mas ele mesmo estava traumatizado,
muito antes do céu ser aberto,
Abandonado, quase humano,
ele afundou abaixo de sua sabedoria como uma rocha.

meditação com "kashmir"

"I am a traveler of both time and space, to be where I have been"
"eu sou um viajante de ambos, tempo e espaço, por estar onde estou".


As meditações estavam interrompidas por um período em que não havia alternativa, pois a faculdade de escolher a realidade, estava fora do meu alcance. Viajei ao oceano, vivendo o mistério da quebrável linha da vida, nas montanhas escuras a absoluta solidão das buscas incompreendidas. Sempre há algumas descobertas.
Pensando nos símbolos da natureza, o mar é absoluto, tem caráter total. Ou seja: dele nada pode escapar. Pode ser usado em uma analogia deveras interessante com a vida. Quem morre no mar geralmente volta à praia, cuspido pelas águas. Jesus foi um cara que andou sobre a água, e ele disse que todos os homens deveriam fazer o mesmo. Ele, supostamente nos trouxe a possibilidade de ressureição do corpo... Ou a certeza de que a mente pode fazer muito mais do que ousamos imaginar. Acreditando no que quiser, pelo menos as imagens parecem claras, nas mensagens que possuem em si mesmas.
Nas montanhas, um lobo uiva à lua, demonstrando que está vivo em sua solidão abissal. Pode soar como lamento, mas é um ecoará por lugares e tempos que ainda não temos a possibilidade de desvendar... É um lamento de vida, que quando nasce ou morre, passa mesmo pela dor.
Agora, através de Kashmir cheguei ao deserto. E tenho medo do que vejo. Existe vida nos lugares aparentemente inóspitos: os seres abissais habitam a zona abissal do oceano, onde reina a escuridão e o frio. Muitos animais do deserto, só aparecem à noite... A contradição permanece no escuro e vice-versa: à ausência de luz, presumimos ausência de vida, ou simplismente a ausência, mesmo. Se seres marginalizados fazem da noite ou do inóspito sua casa, permanecem fora das luzes espetaculosas, e inacreditáveis ao senso-comum que só acredita no que vê, ou no que lhe mostram. O deserto é a paisagem de muitos quadros surrealistas! A ausência de sentido criará forças à explosão da liberdade, amém.